quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

carta para a Sol



Sempre gostei de gatos.
O meu petit nom deve-se a eles.
Quando era criança roubava todos os gatos que encontrava nas ruas.
Levava-os para casa, ficava feliz.
Minha Mãe safava-se deles...inventava uma cena para justificar o seu desaparecimento.
Na esperança de que um dia eles ficassem para sempre, eu insistia em trazer mais gatos e, não bastando este acrescento de família, até crianças da rua, que saltavam e bricavam comigo em estórias inventadas de bibe. Era um sufoco, concordo, para minha Mãe que tinha que alimentar a gataria e a miudagem toda acampada lá em casa.
O processo repetia-se e os longos sermões, para me demoverem de tais comportamentos. Tudo isso entrava por um ouvido e saía por outro ( deve ser por isso que a Natureza nos dotou com dois ouvidos, e não três, nem um.)
Certa ocasião levei uma sova.
Desta vez jurei a mim mesma que havia de recompensar-me de tal injustiça.
Passaram alguns anos, tinha à volta de quinze para dezasseis primaveras,decidi desaparecer de casa, para dar uma lição mestra a minha Mãe.
(Nessa altura já tinha entrado para a Faculdade, e valeu-me uma Madre - era assim que se chamava à Freira Mestra das Residências para universitárias - a quem propus a minha estadia ali, e o pagamento dela após o meu primeiro trabalho, o que foi integralmente cumprido.)
Agora percebo porque os gatos fazem parte de mim, da minha rua, do meu prédio, da minha cidade, do mundo.
Hoje dedico-me a outras tarefas...



maria azenha

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

cactos sem ternura



I

procuro-te sem alvoroço nas ruas
nas tuas mãos o medo a erguer um muro de escuridão
e a densidade do teu peso.
em todas as outras a lua e o cipreste de ti mesmo
num cigarro que não fumas.
sem tumultos lavas de mim as mãos consumada a cinza.
por entre o ar da noite
jogas a cavalo de roupão e eu o peão de domingo
esmagado por três pingos de chuva.


II

meu filho trouxe-me aqui.
os pinheiros tão altos, tão altos
como o luar que se escapa por inesperadas nuvens .
neles o mar naufraga por andaimes
trespassado pela chuva dos búzios
e silêncios que nos recusam.
- (in)fiel retrato de nós-




III

queria semear-me nas algas da casa
num refúgio fundo
antecipar o meu cipreste de neve
sobre as raízes da terra,
para quando os relógios da floresta me viessem chamar
batendo à porta da minha alva morada
eu dissesse:
“aqui já ninguém está”





maria azenha


terça-feira, 1 de Setembro de 2009

cartas na floresta de ser (I)




A escrita é desde sempre para mim um caminho e uma reparação.
Talvez cada um de nós seja como uma casa no meio de uma floresta, com muitas janelas.
E essa casa, um dia, fica vaga. Pode-se chamar do exterior, e uma janela ou duas ainda se ilumina. Mas é impossível saber quem lá ficou depois da última morada.
Só quando a verdade brilha em todo o lado, é o Amor.
Por isso parto. Parto como um livro com páginas por abrir.
De resto, o que de mais terrível pode acontecer entre duas pessoas que se estimam, é que uma delas pense que leu tudo a respeito da outra, e se afaste.
Tanto mais que lendo também se escreve, mas de uma maneira mais misteriosa.
Podemos estar a uns centímetros de distância de outro,
e com efeito está-se a anos-luz. E isto pode acontecer porque há palavras verdadeiras ao lado de palavras falsas.
Continuarei a viajar no principio da Noite.
Há flores que têm a garganta coberta de diamantes.



maria azenha



quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Cartas de um outro deus (II)



(...)
Amado,

Permitam-me os olhos da janela do meu quarto
Que ela nunca me feche os braços.
Preciso de abraçar o mundo
E toda a gente que por ele passe.
Eu sempre tive este coração deslumbrado
na tristeza e no fogo. Choro lágrimas vermelhas
nos campos do meu cansaço
até que o sono venha,
e o navio onde me vou me sonhe.

Amor,
o vento vem medindo comigo forças,
mas eu dou-lhe todos os meus sonhos
e a dor das estrelas em pequeninas gotas de água
para que adormeçam.

No azul dos teus olhos reflectem-se as flores das ondas
e a luz que se vai desfazendo em pérolas do espaço. Depois,
parto o espelho em mil pedaços,
fecho os olhos,
e quanto mais os desfaço
mais abro a porta,
e sei que és tu que entras...



maria azenha

2009,Junho,10,lx




sábado, 2 de Maio de 2009

Cartas de um outro deus (I)







Querido,


Hoje, o que me devolve ao mar é um conjunto de reflexões.
Só te abandonei há uma hora, e o tempo é sempre de outro século, e já me lembro deste verso:


O que arde sem calor é outro deus.


Testemunho assim esta pontualidade carregada de querubins.
Como sabes, tenho horror aos objectos e à sua acumulação.
Talvez, porque se o que nos move é o fim, nunca daremos início ao fogo branco que trazemos escondido.
Vivemos, ao contrário, uma sociedade de obesos de alma e corpo.
É uma constante como uma sombra exangue.
Nunca dei grande atenção à ingratidão humana.
É como uma consequência natural do ego através de uma vontade com fome de coisas que não vê em si.
É um hino ao satanismo.


Como te compreendo, quando dizes com a tua voz subtil:


“onde o vento sopra é onde o coração deve estar mais alerta”.


Convocas nesta frase sílabas de um silêncio quase impenetrável.
Um lugar onde vivemos sem nome para nós, uma raridade.


Querido,
neste início de calor primaveril, os versos que vou escrevendo, vão embranquecendo com
as nuvens e em grande rapidez.
O trabalho dos sentidos é cada vez mais exigente.
Vivemos num tempo de poucos escrúpulos e todos querem ser artistas de camarins
em teatros de papel de feira.
Não, que eu tenha algo contra as feiras, mas sempre me soaram a festas descartáveis e a empoadas glórias, depois de uma grande bebedeira…


Reservo-me ao luxo de suicidar a maioria dos textos.
Como dizia Maria Stuart no final de um poema:


Porque o pior e melhor de mim
São os lugares desertos sem fim.



Volto ao friso da janela, olho o mar em frente.
E dura todos os instantes plenos.


Um beijo,


Tua


(maria azenha)



sexta-feira, 27 de Março de 2009

cartas frente ao mar(VII)






Meu bem - Amado,

esta é a última carta que lhe envio, frente ao mar.
Tudo aconteceu Ontem.
Ontem, depois das águas verdes se despenharem da torre de uma andorinha …
Já não sou senão equilíbrio e voo… gaivotando o mar…


Deixo-lhe os lírios dos meus beijos …


Serei sempre, sempre, o lenço que chove em azul nas auroras boreais ...

Sua,
Anna H.


maria azenha


cartas frente ao mar (VI)



Carta a quatro mãos


Meu Querido,
como ver-me ao espelho,

hoje, escrevo-lhe a quatro mãos. duas para a carta que lhe envio. e outras duas para os versos que se vão fazendo, em duplo.
os meus pensamentos, ou o que quiser chamar-lhes, cruzam-se em vários tempos, em vários universos, e este corpo é diminuto para eles.

meu bem-amado, imagine um feminino sem eu. um Eu sem eus. e
envio-lhe somente a música.
(...)
escuto em noites brancas as palavras da infância
as vozes que ecoaram no dia da última Viagem.



lembro-me que havia frio
e nuvens.
uma criança
colhendo laranjas
sem reparar nesse gesto profundo

oh a loucura enorme de colher o som!
a loucura de ouvir no escuro
o abraço das árvores
no jogo do Um!
(…)
oh Áustria! Oh Auschvitz !,
a amarga sinfonia de auschvitz!

sinto-me Orientes do crepúsculo!...
e compreendo uma única coisa:

o mar
o fundo do mar
a minha cama azul . a avenida de ouro
onde repouso sem som,
o bosque cintilante
do futuro

sobre a minha nuca a espada
do sol,
no mais íntimo acorde da pedra do oceano
estou.


minha é a abóbada celeste das águas turquesas
e o riso das crianças
que brincam de século em século
solitariamente

transporto a igual distância
o riso e o choro
da humanidade que sangra,

nem lágrimas. nem cântico.
nem túmulos

(...)
creio na poesia, no amor, na morte
creio na imortalidade de um verso,
o meu coração é sete vezes azul


como no fogo da água não me pertenço.
passo de um lado para outro,
nela me preparo para a ceia
das galáxias.

como no vento,
um rio secreto me acolhe.

do Sonho entrego-me a um punhado de conchas

restam duas ou três
que o reflexo do sol arrasta...

(...)
lanço à água os últimos ramos de vida .
é o esquecimento.
a morte .



um dia,
se nos virmos,
entregar-vos-ei os versos
que pousaram no pó das minhas mãos...

digo-lhe:

amo.
e é tudo Um.


Anna H.


maria azenha

quarta-feira, 25 de Março de 2009

cartas frente ao mar (V)




(…)
Às vezes a Alma precisa de um "tu" para se manifestar.Outras, ilumina-se como um discurso entre dois amantes sem qualquer encontro físico.E o Amor vive através das palavras, matéria mais sublime desta Vida.
É, talvez, a luz cristalizada em vagas, para que se torne mais pura a escrita do mar.

Este caderno epistolar é uma espécie de comunicação de um outro Lugar, onde é mais perfeito o Sonho, porque é revelado a partir de uma ou mais memórias de almas.
O mesmo acontece, por vezes, num plano mais lírico, embora terreno.

Meu bem-amado,
deixe-me dizer-lhe que a sua última carta atingiu-me em supremos de Ser.
A melhor prova disso é responder-lhe, ainda que sem antever os resultados ou definir direcções exactas, no que me inspirou a sua realidade.
Somos interlocutores de Além, estamos assistindo ao diálogo da luz.
Com uma força diferente, só Pessoa, através do que nos deixou biograficamente, sem biografia corrida.
Como lhe disse um dia, já não possuo história pessoal. Oponho-me a qualquer memória disso.
As minhas cartas falam sempre de um Ser presente, que (re)conhecemos depois das suas respostas e das minhas.
Entende?

(...)

Em Dezembro irei a Salzburg, onde se deu o nosso último encontro. Por isso deve compreender a alegria e o mistério que me assaltam de não saber se por lá ficarei. Ou se , de volta, encontrarei o mesmo Friderich.
Dezembro é um mês particularmente iluminado: frio, de uma fusão espiritual profunda, luzes erguidas em nossas memórias!...

Como sou capaz de discernir tudo , este destino impregnado de tantos sentimentos, como se
diante do mundo afirmasse fragmentos da vida, e toda a minha vida já não pertence a Nada!

Nevoeiro! Nevoeiro! Nevoeiro!, à hora em que a emoção é de carne e sangue!
(...)

Anna

P.S.
O que me impede de lhe mandar a minha fotografia é o horror de poder fixar-me num só rosto... como se fosse possível encarcerar a minha alma!
Odeio retratos , amo a renúncia a Tudo!


Anna H.


maria azenha

terça-feira, 24 de Março de 2009

cartas frente ao mar (IV)


Meu bem - amado,

retenho das suas últimas palavras alguns sinais de sombras e fontes ,
a duração de alguns instantes,
desses que resplendecem a noite dentro das chamas.
E escrevo.
Escrevo o que por mim vai passando, todas as coisas que chegam da distância,
todos estes pensamentos em minha boca-lâmpada…para as suas mãos em trânsito,
como se a memória esguia do silêncio declinasse em mim um peculiar estilo...
São sempre as grandes paisagens, agem na exposição ao Belo.
E o poema tenta recorrer a elas com uma imagem que não pode caber em nenhum retrato.
Quero crer o significado disto: talvez uma nova divisão de átomos...talvez para refazer a forma original da luz, quem sabe?!
Não sei como curar-me desta obsessão pela Unidade!!! Não sei!
Desprezo-me em partes!

Por vezes tudo isto é frio, racional, até clássico; outras, por detrás de cada frase esconde-se um universo que já foi meu!

Hoje, não compreendo nada.
Sou algo que terminou o dia sem ter acontecido a tarde.
Ainda, assim, leio o que nunca escrevi, o que me faz medo...tal como um "estrangeiro" que se lê num cais... e sabe que é ele!

A lógica tornou-se-me impotente. O meu humor é um delírio.
As lágrimas são véus. E os véus vão mudando de formas...
Talvez nem entenda do que lhe estou a falar.
Espero, com alguma impaciência, os seus versos, o seu modo de se afastar de mim... para longe, para poder esquecê-lo e vê-lo...
As Saudades, o que são? O que podem ser?

Queria continuar esta carta, com a vontade de um " ontem"...
mas não sei fazê-lo.
Toda a minha resposta seria uma falha na escuridão iluminada do ser.
E estas cartas, todas, são um barco onde partimos em Viagem...

Porque é noite?
Porque o Futuro já passou?!

Abraço-o,

Anna H.


maria azenha

segunda-feira, 23 de Março de 2009

cartas frente ao mar (III)




(…)

Tudo o que vivi até hoje em nada é comparável , nem em forma, nem em cor, nem em luz, às mais intensas paisagens da alma.
Falo-lhe emocionada.
Nunca Imaginei ( “Imago Dei”) religar - me a lembranças de uma Origem tão profunda.
Há bem “pouco” senti-me conectada a uma certa frequência da Luz, ou se preferir, integrada a um alto Mestre ou irmão Maior.
Belo, mais do que Belo, luminoso, mergulhado num “ mar” que nada tem a ver com os mares físicos que conhecemos.
Abro aqui um parêntesis para lhe fazer notar que há certas “ Realidades” que só se podem manifestar em certas circunstâncias, e quando estamos a “ sós”. Não concorda?

Telepaticamente soube que, com a sua aliança, do Irmão Maior, iria ser Iniciada aos trabalhos da Luz.
Aquela Luz que brilha além do nosso campo de visão mortal, a luz que cobre as diversas e múltiplas existências… expressando-se na criação de vários mundos…
Naturalmente que se trata de um novo estado de Consciência - nenhuma dor, nenhuma tristeza, só espanto! espanto e emoção profunda!

Em verdade o meu espírito ficou odilizado, isto é ,magnetizado pela aura do Espírito puro manifesto no grupo Iniciador. Um êxtase “connoisseur” que ouve, participa, vê, enlevado em sinfonias divinas de Luz!

Esta “ dimensão espiritual” comparada com a “ dimensão material” fica a anos-luz de distância!

Sei, e quando digo “ sei” não o refiro por qualquer conhecimento científico, essa tarefa pertence à vida dos cientistas, que o nosso Planeta está capacitado a passar a uma condição espiritual, de acordo com a Obra da Luz!

Foi-me dado um” nome”, isto é, um selo da Luz, que acaba por ser um mantra estelar, para a dimensão a que fui iniciada…
Este selo , no plano da Forma ,contém doze pétalas e um centro.

Tudo o que aqui escrevo, de algum modo discretamente, depois da minha partida derradeira de Salzburg, não encontra correspondência com nenhum outro passado, que eu conheça…
Creio que agora percebe melhor porque terei de regressar a Salzburg, pelo menos esse é um fio desta grande meada.
Outro ponto, que só mais tarde falarei, é o Japão.

(…)
Volto agora ao início desta carta, “ falo-lhe emocionada”.
Nesta simbólica frase esconde-se a beleza e o brilho imortal da Alma .
E para concluir hoje este raro “momentum” gostava de transportar para “ aqui” alguns hieróglifos da alma…



Os deuses sabem das metades das estrelas
Nos tapetes do universo,
Nós conhecemos outros mundos
Onde se comunicam almas


(…)

Vivemos no pleno passado e no pleno futuro, desdobrando-se em eterno Presente!


…, Anna H.,…,Y…, M…, …


maria azenha

domingo, 22 de Março de 2009

cartas frente ao mar (II)



(...)
Como é difícil escrever no meio de vivências que transcendem a realidade comum!
O que me espreita é um Outono sem fundo,um segredo escondido a tal ponto que nem eu própria sei dizê-lo...

Tudo me impele para a Luz. Vivo esta inquietação terrível de não conseguir responder a ninguém, a nenhuma carta, a nenhuma coisa, dentro do tempo...tantos os sinais que me chegam durante a noite...
Tenho sempre imensas coisas e dúvidas para dizer-lhe e, contudo, nenhuma palavra me sai uniformemente: há uma mão estendida de Cima que me puxa para fora desta perpétua passagem...
Não sei se isto lhe faz algum sentido. Todavia, se estiver atento,utilizo frequentes vezes fragmentos dos meus versos como respostas isoladas,só aparentemente, a questões parecidas consigo.
(...)
Sinto que as respostas práticas a perguntas objectivas sujam a Realidade!
( esta é uma ideia que me vem da infância...)
Talvez por isso me tenha dedicado à linguagem dos versos desde que me "re-conheço".
Era ainda pequena, regressava do mar, e tudo estava à mesma distância dos nomes.
Sei hoje que um poeta vive mergulhado na mais profunda voz.
Como ansiei que Alguém me visse pelos meus próprios olhos!
O humano, que deve haver em todos,é um constrangimento!

Mas irei escrever-lhe sempre , porque o tempo é " aqui" uma coisa rara.
O que espero de si? Nada.
(...)
Abro a porta do mar e questiono: Porque a minha alma não conhece intervalos?
(...)
Li as " Interioridades" à beira do Oceano. E é ele que lê comigo ( espero que não se ofenda... ) " céus de água azul e luz fazem o mar que nos atinge".
(...)
Por mim nada digo quanto ao que escrevo por dentro dos meus livros, isso não me diz respeito: contento-me ou descontento-me com o que existe dentro deles.
É por isso que já não me faz sentido publicar nessa forma cristalizada das árvores, que são os livros.
Só posso imaginar-me planos diversos da minha vida natural de escrita.

Antes, estava só.
Hoje, ainda mais só, por imaginar Tudo.
P.S.
Em breve irei passar alguns dias a Salzburg.
Há locais que são luz . Todos os versos são apenas passagens obscuras para o lado de lá dos espelhos! ...


Anna H.


maria azenha

sábado, 21 de Março de 2009

cartas frente ao mar (I)



Meu bem-amado,

escrevo-lhe o mais parcimoniosamente possível,
para o não aborrecer com longas conversas.
Dito isto levanto os dizeres de minha alma para si.
Ou para nós?!

Recordo-me das tardes felizes, das quedas de água pelos muros do jardim,
do calor dilatando os aromas das flores ...tudo tão enternecedor...
Estes fragmentos de paisagens, não sei se poderão criar no futuro
algo de grande na nossa linguagem...
Tivesse eu imaginado tudo isto numa grande Língua,
e seriam necessários apenas dois ou três versos.
Tenho a noção que escrever versos é escrevê-los depois.
Não há língua materna para eles.
Nunca me conformei em atribuir Línguas aos Poetas.
É certo que posso dizer em Português, mas a alma das coisas pertence a uma outra língua que não tem Nome.
Eis porque penso que tudo isto de escrever poemas é um grande teatro de Sons.

O Português adapta-se bem ao Universo, cujo mistério preside a cada instante de cada Verso.
Claro que falo de Poetas .
Se me exigissem, ou se eu fosse capaz de escolher outra Língua, certamente nunca escolheria o Inglês, embora reconheça nela o ser uma língua prática , soa-me sempre aos sons de um relógio que bate horas finitas;não me devolve os sons misteriosos das sombras do Oriente.
Já o Francês me seria mais próximo, embora não o escolhesse definitivamente.
Até pode acontecer, aqui ou acolá, sair-me um verso, mas isso acontece por alguma razão
de não querer ir mais longe .
Devíamos falar em dois tipos de Línguas: a Materna e a de Origem.
- Eu quase sempre reconheço um bom Poeta quando ele fala e escreve na Origem.-
O Poeta tem de ser mais rápido que a sua própria língua escrita.
Quero dizer:
o primeiro verso parecendo o princípio de qualquer coisa, é já o fim de outro que se desprende e desconhece, lido.
Por exemplo, quando digo,
" há um cutelo de água nas fontes",
antes dele vem toda a paisagem dos bosques, ou dos parques, ou da alma vivida,
onde a Poesia é suspensa e sem data.

Como vê, meu bem-amado, a Poesia que o Poeta escreve nunca está lá, explícita.

Os concretismos podem servir muito bem Sociedades robóticas, até ser belos, mas não estimulam no ser humano a procura do Indizível.Aquilo que não se traduz em nenhuma Língua.
Tudo isto é discutível, mas são os meus propósitos.

Ah!, como eu amo os desertos sem fim!



(...)

P.S.
1)Ontem estive, como sabe, perto , muito perto de "Alguéns", até bastante tarde,
foi preciso apertar Outros nos braços, sem tempo nem espaço.

2)Se pudesse escreveria hoje uma carta só para mim, para a receber depois, naturalmente, e olhar as palavras vindas de fora.
(...)

Ansiosamente espero o inédito, aquilo que só alguns poetas sabem fazer.

Deixo-lhe estas reflexões , a frio?!, tal como um livro que nunca se acabará de escrever...

Anna H.


maria azenha

sexta-feira, 20 de Março de 2009

cartas frente ao mar (0)

Áustria está em guerra. Agarro-me à vida,
ao medo de me verem chorar, tu sabes como fui sempre tímida.
Vou para o piano e lembro-me de ti;
Schumann dá-me algum conforto, faz-me sentir mais perto do poder da morte.
Parece que o tempo parou.
As árvores das ruas estão em paz, mas abandonadas a uma elegante tristeza.
Às vezes parece chover, mas devem ser os meus olhos de orvalho, e já confundo a realidade com esta paisagem da alma...
De manhã subo a avenida, um pouco íngreme, e do outro lado repousas jovem,
como sempre os deuses se mostram no silêncio mais absoluto da terra.
Ouço a música da tua voz dentro das sementes …das pedras que se vingam de nós.
É assim que venho de ti todas as manhãs…à tua derradeira imagem,
lentamente divinizada…
Agora subo as escadas lá para cima,
onde ficavas pela noite fora a ler e a meditar os livros de medicina.
Por vezes interrogava-me se não me esconderias alguma coisa que eu não pudesse suportar em dor.
Não conheço angústia maior no mundo do que a de te ter perdido.
Os que se amam como nós não deveriam nunca saber sobre o seu destino.

Foi nessa altura, era Junho, talvez, porque me lembro das flores perfumadas
e dos requebros de luz na poltrona da sala, onde conversávamos até à hora de jantar…
Foi nessa altura que nasceu a minha vontade de escrever.
(…)Nada é nosso,Friedrich.
Os nossos passos , só eles, podem pegar em nossas mãos e lançá-las ao Grande!

Anna Heltzing


maria azenha

segunda-feira, 16 de Março de 2009

cartas eternas

Como te sentes?
Gostava de saber de Saber, com toda a verdade que não há, de não podermos saber, que tu partiste para Aí; para Aí, digo, onde é mais do que matar-me!
Querido, estou sentada no sofá da sala, naquele sofá que veio parar em terceira mão ao chão da minha casa. aquele, cor de mel, da cor de deus, que nunca vi,
com que partiste na ideia dos milénios...
era talvez sensato destruí-lo, como pensei, uma vez, fazer-te em mim... mas, prefiro inventar-lhe uma outra ordem. uma outra fala íntima... para ser antigo e de agora...
queria dizer-te como me sinto, contar-te a que horas te foste embora, mas já não falo em ti.
Às vezes assomam-me à memória os problemas pequeninos de contas a pagar, tabuadas,estórias que inventavas para me pegar ao colo. eram, num livro construído fora do ensino, só para mim, como se houvesse no Universo uma aritmética e um alfabeto escondidos.
falo de tudo isto neste Inverno, Querido.
O meu destino é a chuva nos vidros.
é a chuva que me cai ao colo. Sabes?

Às vezes , mudo a posição dos móveis da casa,como faço com os versos e os quadros, para ver se te encontro em algum lugar perdido.
Pode ser que um dia me apareças, quem sabe, e me leves contigo, para ver o mar...
Quando pinto, vejo as tuas lágrimas nas tintas, surpreendes-me. parece que estás em muitos sítios ao mesmo tempo...
lembro os sons, quando era sábado, e tu me deitavas no banho, e me penteavas. e fazias comigo diálogos no correr da água. e me enxugavas a pele com beijos na toalha do corpo... e abrias os olhos com versos nas minhas janelas ... e o pão - de - ló que fazias em fogões de lenha para aquecer os sábados, que trazias até nós.
então parecia existir o mundo.
Hoje, tenho pedras, casas, metáforas, tudo espalhado pela Terra, numa casa maior do que o próprio mundo.
Querido,
a Vida é um grande manicómio onde treino para Nada... e talvez o corpo seja o recinto do Infinito...


Beijos ,
tua sempre
mm


maria azenha